19 de set de 2011

Amazônia: a saída é a floresta de alimentos! – parte 2/3


fonte:
http://www.oecoamazonia.com/br/artigos/9-artigos/292-amazonia-a-saida-e-a-floresta-de-alimentos-parte-2




Amazônia: a saída é a floresta de alimentos! – parte 2: vamos aos cardápios
João Meirelles Filho25 de Agosto de 2011

Cestos de açaí. Crédito: Instituto Peabiru

Se o açaí precisou sair dos furos do Marajó para conquistar as areias das praias cariocas e o gosto do norte-americano. Da mesma maneira, se a castanha-do-Pará, ou da Amazônia (porque tem no Acre, no Mato Grosso, no Amapá, na Bolívia, Peru...), como deve ser, há anos ocupa especial atenção no mix de salgadinhos europeu e norte-americano, é porque a Amazônia têm algo mais a oferecer que carne clandestina (2/3 da carne consumida na Amazônia é pirata!).

Vamos discutir a região a partir das sete maravilhas da Amazônia, os gatilhos para devorar a floresta, que poderão salvar a Amazônia da catástrofe. São elas, sem uma ordem precisa: 1) A família das farofarinhas - as mandiocas (a brava e a mansa), 2) as três palmeiras, as árvores-da-vida - açaí, babaçu e pupunha, 3) a pílula da felicidade: a castanha-da-Amazônia (do Pará),  4) os chocolatáveis - os primos-irmãos cacau-cupuaçu, 5) As frutas regionais; 6) Os temperos loucos; e 7) O adoçante natural Premium: o néctar, mel das abelhas nativas.

Vamos aos detalhes:

1)    A família das farofarinhas

A farinha de mandioca é o que os primeiros portugueses chamaram de farinha-de-pau. Nossa equação tem três desafios quando se trata da mandioca (a brava, que dá a farinha, a mansa, pra comer direto). Primeiro: o amazônida consome três vezes mais farinha-de-mandioca que a média nacional (cerca de 100 gr. por dia, IBGE); segundo: a produtividade da produção de mandioca, e por consequência, da farinha, por hectare, é muito baixa (pode chegar a vinte vezes a altamente tecnificada no Sul), o que resulta em muito trabalho, grande emprego de terra, baixa renda, danos ambientais (derrubada, queimada etc.), pouca produção; terceiro: se o preço da farinha aumentar significativamente, muita gente passa fome (mais do que já vimos!).

Solução 1: as políticas públicas federais, estaduais e municipais levarem a sério este problema. Ao invés de se preocupar com o preço dos veículos automotivos, uma vez que as montadoras tem lobby, há que se preocupar com a comida de milhões (o que afeta também o Nordeste do Brasil). Recente estudo sobre a cadeia de valor da farinha de mandioca em Portel, no Marajó, coordenado pelo professor Antônio Cordeiro e dirigido por Marco Antônio Santos, pela Universidade Federal Rural da Amazônia, Instituto Peabiru e Fundo Vale apontam alguns caminhos.

Solução 2: elevar a farinha-de-mandioca a produto Premium como produto amazônico, com qualidade, higiene, padrão de exportação para outros brasis e o exterior, juntamente com seus agregados, como a goma (pra fazer tapioquinha), a tapioca (pra acompanhar o açaí e fazer bolo etc.), o tucupi (o sumo da mandioca, altamente energético e revigorante, o verdadeiromissoshiru da Amazônia, base do tacacá-no-tucupi), a folha-de-mandioca (que uma vez extraído o acido hidrocianico (HCN) é importante fonte de vitamina A e sais minerais e poderia ser adicionada à merenda escolar).

Solução 3: ensinar o mundo como se come a farinha e seus produtos: o chibé, o beiju, o beiju-cica, a mujica, a curera (pra bicho e pra gente), o caxiri , etceteras mil... A Amazônia e o Brasil viveram de mandioca como principal fonte de calorias por dez mil anos. Os Tupi dominaram o cenário por 600 anos à base de mandioca e não há que abandonar este conhecimento sem melhor o compreender. Seria o verdadeiro embaixador da culinária amazônica inventando coisas como o chibé-shake!

2)    As três palmeiras, as árvores-da-vida:

São mais de cem as espécies de palmeiras, mas fiquemos apenas em três: o açaí, o babaçu e a pupunha. Perdoem-me o xis-caboclinho manauara (de tucumã), o miriti (buriti, delicioso), o patauá e seu azeite, a bacaba, (bem parecida com o açaí).

O açaí taí pra provar que é possível colocar em menos de dez anos um produto no mercado, envolver mais de cem mil pessoas na cadeia de valor com todas as precariedades e gerar renda local superior a mais de R$ 2 bilhões (IDEFLOR/IDESP, 2010). E isto com baixíssima presença do governo, foi tudo invenção do consumidor!

Que se dirá se houvessem políticas públicas consistentes (pra não dizer decentes). O açaí, a superfruta, uma das mais potentes fontes naturais de antocianinas (antioxidante, contra o envelhecimento), lembrem-se, também a fonte principal alimentar (durante as safras) de mais de um milhão de pessoas, principalmente no estuário do Amazonas & Tocantins. Bem pensada sua logística, para se processar e conservar adequadamente com a higiene necessária e considerando-se o plantio de áreas úmidas degradadas com açaí, teremos uma outra escala de produção e sabedoria. Sem contar que a maior parte do palmito do Brasil é deste açaí. Açaí na tigela com farinha de mandioca (ou tapioca) adoçado com mel de abelhas nativas - prato-chefe do Brasil na copa da sustentabilidade.

O babaçu é outra planta da vida, planta-omni, com dezenas de uso, do óleo para culinária e cosmética, do carvão vegetal que substituiria uma usina hidrelétrica de grande porte, do biodiesel à matéria prima para a industria química e, principalmente, como alimento. Há o leite das amêndoas (semelhante ao leite humano), como o mesocarpo (entre as cascas) do babaçu, que dá uma farinha excelente, rica em amido e sais minerais, utilizado como antiinflamatório, para artrites etc.

Sucede que trezentas mil mulheres, isto mesmo, trezentas mil mulheres, sobrevivem de quebrar o côco - são as heroínas do Brasil - as quebradeiras de côco, e dele tiram uns caramingués de renda nos estados do Piauí, Maranhão, Mato Grosso, Tocantins e Pará. Isto porque nenhum governo levou a sério, até agora, esta questão do babaçu.

A terceira super-palmeira é a pupunha, conhecida de comunidades indígenas e tradicionais. Dela se aproveita quase tudo. O principal interesse está em seu palmito, vendido em conserva. O fruto é um alimento quase completo, contendo proteínas, óleo, caroteno e principalmente, amido. Possui duas vezes mais proteínas que a banana e pode-se retirar de um plantio de pupunha, somente do fruto, mais em carboidratos e proteínas por hectare do que o milho (que exige o replantio a cada colheita).




João Meirelles Filho, mora em Belém, Pará, dirige o Instituto Peabiru e é autor de livros sobre a região - Livro de Ouro da Amazônia (Ediouro, 2003) e Grandes Expedições à Amazônia Brasileira (Metalivros, 2009), e está aprendendo a devorar a Amazônia.


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