27 de set de 2011

Slavoj Zizek - a a verdadeira utopia 2/3

fonte: revista de filosofia
http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-sabedoria/31/artigo228143-2.asp


parte 2/3


A verdadeira utopia



Para dar conta das necessidades de transformações na sociedade, é preciso ir além do imaginado por Marx e não temer radicalizar a atualizar suas noções de proletariado e comunismo 


Por Slavoj Zizek* Tradução: Maria Beatriz de Medina


1 BEM-VINDO AO DESERTO DO REAL! (2003)
"Com essa esquerda, quem precisa de direita?" Tendo como mote essa frase provocativa, Slavoj Zizek analisa, em cinco ensaios, os acontecimentos e as consequências dos atentados ao World Trade Center e ao Pentágono no dia 11 de setembro de 2001. A tentativa do filósofo esloveno é despertar a esquerda para uma nova atitude, inventiva e contudente, para recuperar o terreno perdido e colocar-se como alternativa à ordem hegemônica, representada pelos EUA, consolidada após a queda do Muro de Berlim (1989) e o fim da União Soviética (1991). Para tanto, é preciso não cair nas falácias da ideologia, das falsas polaridades e do "deserto do real".


Antagonismo e Protagonismo Global
Microsoft
Empresa fundada em 1975 por Bill Gates e Paul Allen, a Microsoft tornou-se, ao lado da Coca-Cola e do McDonald´s, símbolo do capitalismo dos EUA. Os críticos do sistema operacional da Microsoft - o Windows, lançado nos anos 1980 - acusam Gates de monopolista e de ser um "inimigo do software livre'. Além do Windows, a Microsoft desenvolveu o MS DOS, o Pacote Office (Word, Excel, PowerPoint etc.), o MSN e o Internet Explorer.
A única questão verdadeira hoje é: o capitalismo global contém antagonismos fortes o suficiente para impedir sua reprodução indefinida? Existem, penso eu, quatro desses antagonismos: a ameaça iminente de uma catástrofe ecológica, o caráter inapropriado da propriedade privada para designar a chamada "propriedade intelectual", as implicações socioéticas dos novos desenvolvimentos tecnocientíficos (especialmente na biogenética) e, por último, mas não menos importante, as novas formas de apartheid, os novos muros e as favelas. Há uma diferença qualitativa entre este último aspecto, a lacuna que separa os excluídos dos incluídos, e os outros três, que designam os domínios daquilo que Hardt e Negri chamaram de "comuns", a substância partilhada do ser social cuja privatização é um ato violento a que se deve resistir, igualmente, com meios violentos, se necessário:
* os comuns da cultura, as formas imediatamente socializadas de capital "cognitivo", primariamente a linguagem, nosso meio de comunicação e educação, mas também a infraestrutura comum do transporte público, da eletricidade, dos correios etc. (se o monopólio fosse permitido a Bill Gates, chegaríamos à situação absurda em que um único indivíduo seria literalmente dono da tessitura, do software de nossa rede básica de comunicação);
* os comuns da natureza externa ameaçados pela poluição e exploração (do petróleo às florestas e habitats naturais);
* os comuns da natureza interna (a herança biogenética da humanidade): com a nova tecnologia biogenética, a criação do novo homem, no sentido literal de mudar a natureza humana, se torna uma perspectiva realista.
O que todas essas lutas têm em comum é a preocupação com os potenciais destrutivos, inclusive a autoaniquilação da própria humanidade, se fosse dada carta branca à lógica capitalista de enclausuramento desses comuns. Nicholas Stern estava correto em caracterizar a crise ambiental como "o maior fracasso do mercado na história da humanidade" (Revista Time, 24/12/2007). Então, quando Kishan Khoday, um líder de equipe da ONU, escreveu recentemente que "existe um espírito crescente de cidadania ambiental global, um desejo de fazer da mudança do clima uma questão de preocupação comum de toda a humanidade", deve-se dar toda ênfase nos termos "cidadania global" e "preocupação comum" - a necessidade de estabelecer uma organização e um engajamento plítico globais que, neutralizando e canalizando os mecanismos de mercado, representem uma perspectiva propriamente comunista.


2 A VISÃO EM PARALAXE (2008)Considerado sua obra teórica mais densa, A Visão em Paralaxe sintetiza as questões e o repertório teórico de Zizek. O próprio significado da palavra "paralaxe" é complexo (e tomado emprestado da astronomia). Segundo o Houaiss, paralaxe é o "deslocamento aparente de um objeto quando se muda o ponto de observação". Jacques Lacan, Karl Marx e G. W. F. Hegel estão entre as referências do filósofo, que mesmo num trabalho de fôlego - 512 páginas na edição brasileira - não deixa de lado seu estilo de associar psicanálise, marxismo e filosofia a análise de fenômenos das artes. literatura, cinema e da cultura de massa.


A única questão verdadeira hoje é: o capitalismo global contém antagonismos fortes o su ciente para impedir sua reprodução inde nida? Existem, penso eu, quatro desses antagonismos: a ameaça iminente de uma catástrofe ecológica, o caráter inapropriado da propriedade privada para designar a chamada "propriedade intelectual", as implicações socioéticas dos novos desenvolvimentos tecnocientí cos (especialmente na biogenética) e, por último, mas não menos importante, as novas formas de apartheid, os novos muros e as favelas


Linux
Software livre, de código aberto, o sistema Linux - cuja símbolo é um pinguim - foi desenvolvido pelo engenheiro de software finlandês Linus Torvalds, da Linux Foundation. Como a licença para o uso desse código é aberta - General Public Licence (GNU), diversas outras empresas, fundações e até usuários criaram variações do sistema operacional. O Linux é um dos bastiões de uma nova visão sobre a propriedade intelectual.
É essa referência aos "comuns" que justi- ca ressuscitar a palavra comunismo. Ela nos permite ver o "enclausuramento" em marcha dos comuns como um processo de proletarização daqueles que estão, assim, excluídos de sua própria substância. A situação histórica de hoje não só não nos compele a abandonar a noção de proletariado, da posição do proletariado; ao contrário, ela nos compele a radicalizá-la a um nível existencial para além da imaginação de Marx. Necessitamos de uma noção mais radical do sujeito proletário, um sujeito reduzido a um ponto evanescente do cogito cartesiano, privado de seu conteúdo substancial.
Por esa razão, a nova política emancipatória não será mais o ato de um agente social particular, mas uma explosiva combinação de diferentes agentes. O que nos une é que, em contraste com a clássica imagem dos proletários que não tem "nada a perder senão seus grilhões", corremos o perigo de perder tudo. A ameaça é que sejamos reduzidos a um sujeito cartesiano abstratamente vazio, desprovido de todos os conteúdos substanciais, desapropriado de substância simbólica e com a base genética manipulada, condenado a vegetar num meio ambiente inabitável. Essa tripla ameaça a totalidade de nosso ser nos torna, de certo modo, todos proletários, reduzidos à "subjetividade sem substância", como Marx a rma nos Grundrisse. O desa o ético-político é reconhecermos a nós mesmos nessa gura - de certa forma, todos nós somos excluídos, tanto da natureza como de nossa própria substância simbólica. Hoje somos todos potencialmenteHomo sacer, e a única forma de evitar que nos tornemos um é atuando preventivamente.


3 LACRIMAE RERUM (2009) 
Lacrimae rerum: ensaios sobre cinema moderno reúne ensaios do autor sobre cinema no quais questiona os cineastas, mesmo aqueles ligados ao "cinema crítico", de "conceder legitimidade ideológica ao real", a partir das imagens e históricas com um "panorâma estático" da realidade. Entre os filmes e diretores examinados nos ensaios estão o russo Andrei Tarkovski (1932-1986), diretor de Solaris (1972), o polonês Krzysztof Kielowski (1941-1996), de A Triologia das Cores (1993-1994), e os irmãos de Chicago (EUA) Andy e Larry Wachowski, realizadores da trilogia Matrix (1999-2003).

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