27 de set de 2011

Post titleSlavoj Zizek - a a verdadeira utopia 1/3

fonte:  revista de filosofia
http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-sabedoria/31/artigo228143-1.asp


parte 1/3



A verdadeira utopia


Para dar conta das necessidades de transformações na sociedade, é preciso ir além do imaginado por Marx e não temer radicalizar a atualizar suas noções de proletariado e comunismo 


Por Slavoj Zizek* Tradução: Maria Beatriz de Medina



General Intellect
Incluído em Grundrisse, livro de Karl Marx publicado postumamente - para muitos uma base para entendermos as sofisticadas teorias e esquematizações de O Capital - o termo gene ral intellect significa, em linhas gerais, a inteligência social ou coletiva, o trabalho imaterial. De certa forma, se opõe ao conceito de propriedade intelectual individualizada.
Para instaurar uma forma diferente de funcionamento do poder, que vá além dos limites da democracia representativa, permanecer el à ideia comunista não é su ciente. Devem ser localizados, na realidade histórica, os antagonismos que fazem dessa ideia uma urgência prática. Deve-se, em primeiro lugar, transformar de maneira crítica os aparatos conceituas de Marx. Por causa de sua negligência quanto à dimensão social do a general intellect, Marx não vislumbrou a possibilidade de privatização do próprio general intellect - é isto que está no coração da batalha pela "propriedade intelectual". Nisso a Negri está certo: sob esse ponto de vista, a exploração no sentido marxista clássico não é mais possível - e é por isso que ela tem de ser reforçada, cada vez mais, por medidas legais diretas, ou seja, por uma força não econômica. É por isso que hoje a exploração assume cada vez mais a forma de uma renda. Como a rma Carlo Vercellone, o capitalismo pós-industrial é caracterizado pelo "tornar-se renda do lucro". E é por isso que a autoridade direta é necessária. É preciso impor as condições legais (arbitrárias) para que se extraia a renda, condições que não são mais "espontaneamente" geradas pelo mercado.
Talvez aqui resida a "contradição" fundamental do capitalismo "pós-moderno" contemporâneo. Enquanto sua lógica é desreguladora, "antiestatal", nomática/desterritorializante etc., a tendência principal do "tornar-se-renda-dolucro" assinala um fortalecimento do papel do Estado, cuja função (não somente) reguladora é mais e mais onipresente. Desterritorialização dinâmica coexiste com e se apoia mais e mais em intervenções autoritárias do Estado e seus aparelhos legais (e outros). O que é possível discernir no horizonte do nosso porvir histórico é, assim, uma sociedade em que liberalismo pessoal e hedonismo coexistem com (e são sustentados por) uma complexa rede de mecanismos estatais regulatórios. Longe de desaparecer, o Estado está se fortalecendo.
Negri
Filósofo e militante político italiano, Antonio Negri (Toni Negri) é coautor, com o filósofo americano Michael Hardt, dos livros Império e Multidão. Negri atuou nos anos 1940 e 1950 em organizações católicas progressistas e, em seguida, militou no Partido Socialista Italiano. Participou dos eventos de 1968 na Europa e, devido às suas ações revolucionárias, foi preso algumas vezes pela polícia italiana - "acusado de subversão contra o Estado". Negri editou periódicos marxistas e recentemente participou de edições do Fórum Social Mundial.
Em outras palavras, quando, devido ao papel crucial do general intellect (conhecimento e cooperação social) na criação da riqueza, formas de riqueza estão mais e mais "fora de quaisquer proporções com o tempo de trabalho direto envolvido em sua produção", o resultado não é, como Marx parece esperar, a autodissolução do capitalismo, mas a transformação gradual e relativa do lucro gerado pela exploração da força de trabalho em renda apropriada pela privatização do general intellect. Tomemos o caso de Bill Gates. Como ele se tornou o homem mais rico do mundo? Sua riqueza não tem nada a ver com os custos de produção dos produtos vendidos pela a Microsoft (podese até mesmo argumentar que a Microsoft está pagando a seus trabalhadores intellectuais um salário relativamente alto), isto é, a riqueza de Gates não é resultado de seu sucesso em produzir bons softwares por preços mais baixos do que seus competidores, ou com uma maior "exploração" dos trabalhadores intelectuais con tratados. Fosse esse o caso, a Microsoft já teria ido à falência há muito tempo. As pessoas teriam aderido em massa a programas alternativos e gratuitos, como o a Linux - que, de acordo com especialistas, possui melhor desempenho do que os programas da Microsoft .
Por que, então, milhões de pessoas ainda compram produtos da Microsoft ? Porque a Microsoft se impõe como um padrão quase universal, (quase) monopolizando o mercado, uma espécie de encarnação do general intellect. Gates se tornou o homem mais rico do mundo em algumas décadas apropriando-se da renda cobrada pela permissão, dada a milhões de trabalhadores intelectuais, de participar da forma de general intellect que ele privatizou e controla. É verdade, então, que os trabalhadores intelectuais de hoje não estão mais separados das condições objetivas de seu trabalho (eles possuem seu próprio PC etc.), o que seria, em Marx, a descrição da "alienação" capitalista? Sim, mas, mais fundamentalmente, não. Eles foram mutilados do campo social de seu próprio trabalho, do general intellect - que por sua vez é mediado pelo capital privado.
E o mesmo acontece com os recursos naturais. Sua exploração é uma das maiores fontes de renda hoje em dia, acompanhada pela luta por quem irá controlar essa renda, as populações do Terceiro Mundo ou as corporações ocidentais. A ironia suprema é que, para explicar a diferença entre força de trabalho - que, em seu uso, produz mais-valia sobre seu próprio valor - e outras mercadorias - cujo valor é simplesmente consumido em seu uso, sem envolver exploração -, Marx menciona como exemplo de mercadoria "comum" o petróleo, a mesma mercadoria que hoje é a fonte de extraordinários "lucros". Aqui também não faria sentido vincular os aumentos e as quedas do preço do petróleo à exploração do trabalho - o custo de produção é negligenciável, o preço que pagamos pelo petróleo é a renda que pagamos aos proprietários desses recursos por sua escassez e oferta limitada.

ZIZEK NO BRASIL
Nascido na pequena Eslovenia, então pertencente a extinta República Socialista Federativa da Iugoslávia, o filósofo, sociólogo e psicanalista Slavoj Zizek despontou como um dos pensadores capazes de renovar a teoria marxista no final da década de 1980. Sua mescla de psicanálise lacaniana, marxismo revigorado e crítica cultural ganhou força na década seguinte, primeiro no Leste Europeu, depois por toda a Europa e teve, enfim, forte impacto em outros continentes. Antes, no ano de 1990, candidatou-se à presidência da Eslovênia pelo Partido Liberal Democrático, agremiação que reunia feministas, minorias, pensadores alternativos, artistas, ecologistas e dissidentes da ortodoxia comunista em geral (a vitória naquele pleito foi do advogado e ex-militante do PC esloveno Milan Kucan).
A recepção às ideias de Slavoj Zizek no Brasil iniciou-se pela via academica no final dos anos 1990. Após o atentado de 11 de setembro de 2001, os intelectuais de esquerda renovadores e criativos voltaram a ser notados para além dos centros de estudo. Seus artigos, livros e entrevistas chamaram a atenção dos leitores brasileiros. Em 2008, Zizek participou do programa Roda Vida, da TV Cultura, retransmitido para outras emissoras públicas do país. Sua fala rápida, seus gestos repletos de tiques e movimentos tensos compõem a personalidade carismática e curiosa do pensador esloveno.
Em maio de 2011, Slavoj Zizek esteve em turnê pelo Brasil para lançar seus livros Em Defesa das Causas Perdidas e Primeiro como Tragédia, Depois como Farsa. Participou do seminário Revoluções - uma política do sensível (São Paulo, dia 21/5) e de uma conferência no Rio de Janeiro (24/5), este último a convite de um grupo de instituições universitárias e de pesquisa formado pelo IEAH, PUC-Rio, Clacso e Flacso. Participou ainda, na capital paulista, do ciclo de palestras III Congresso de Jornalismo Cultural - Cult/ Sesc-SP. (Da Redação)


O que é possível discernir no horizonte do nosso porvir histórico é, assim, uma sociedade em que liberalismo pessoal e hedonismo coexistem com (e são sustentados por) uma complexa rede de mecanismos estatais regulatórios. Longe de desaparecer, o Estado está se fortalecendo

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