19 de out de 2011

Primeiro contato com São Pedro - Viagem Pibic de 2011!

Visita a São Pedro de Joselândia – 23 a 26 de Setembro.


André Manfrinate. (Foto de Michèle Sato, 2011).

Viajando pela primeira vez com o grupo GPEA, fui para o distrito de Joselândia, mais especificamente para a comunidade de São Pedro, na região do Pantanal Matogrossense.

Jacaré (Foto de Michèle Sato, 2011).

Em primeira impressão, pelo trajeto percorrido, percebi a dificuldade que se tem ao acesso à comunidade (rodovia, barco e estrada de chão) em meio à estação da seca do Pantanal. Passamos também por outras comunidades pertencentes ao distrito de Joselândia, tendo um número pequeno de casas, todas muito simples.


Preparativos da Festa de São Cosme e Damião (Foto de Michèle Sato, 2011).

A simplicidade (conceito relativo, a comparação se dá à vida nas cidades metropolitanas) também é presente em São Pedro, com exceção às igrejas muito bem construídas, seja a católica como a protestante. Temos indicativos do forte fervor religioso da população (ao catolicismo), não se vê outras manifestações religiosas, de crenças outras que não a cristã. Viemos a presenciar a festa de São Cosme e Damião, uma das inúmeras festas religiosas da comunidade, sempre realizadas cada vez por uma família. Na busca de conhecer o preparo à festa, conhecemos a família de Dona Maria, que carinhosamente recebeu os pesquisadores, e assim tive o primeiro contato com os habitantes da região.


Altar de D. Maria (Foto de Michèle Sato, 2011).

Em primeira vista, D. Maria tinha uma casa simples de zona rural, de chão batido, paredes de cimento na frente, e ao fundo alguns cômodos, como a cozinha, feitos de madeira e palha. Não há gás ou fogão elétrico, assim é utilizado o forno à lenha. Existem muitos animais no lugar (cães, porcos, pássaros...) e crianças, que transitam descalças, algumas com feridas nos pés, porém, muito felizes nas brincadeiras e preparativos da festa.

Conheci um menino que lá estava, todavia não era da família de D. Maria. Ele me contou sobre a escola da região, revelando satisfação, porém, evidenciando a dificuldade em chegar até o local, uma vez que o ônibus escolar do governo estadual, necessário às crianças como condução, por vezes apresenta problemas, e assim os alunos devem ir a pé. Outro problema que o pequeno habitante de São Pedro revela é a falta de remédios no único posto de saúde da comunidade (não existe hospital), que só possui um enfermeiro, e um médico que visita uma vez ao mês a região. Quando se acidentou, machucando seriamente o pé, por pouco não precisou amputá-lo; o menino através de ajuda foi levado até a metrópole, sem medicação, assim sentido dores, até operar no pronto socorro de Várzea Grande. Apesar dos problemas, ele se sente bem na comunidade, e adora as festas.

Ainda no preparativo da festa, juntamente à professora Michèle conversei com algumas mulheres, que revelavam satisfação à comunidade, enxergando como problemas apenas a falta de umidade. Nesse aspecto, a professora me revelou que eu deveria basear nas entrevistas o público masculino. Por uma divisão de trabalhos, as mulheres vinham a ter pouca participação em atividades mais ligadas à sociedade, ambiente e política, tendo mais ligação ao trabalho doméstico; alguns homens, como Seu Jânio, canoeiro, viriam a me apresentar uma visão mais crítica, como falarei mais adiante.

Contudo, na conversa, descobrimos também que devido a poucos recursos que dispõem, as famílias são obrigadas a se utilizar de arvores da região ao invés da compra de ripas, por exemplo, na construção das casas. Têm, porém, medo de uma fiscalização, assim, as madeiras são pegas ao escondido, segundo relatam as mulheres.

Com outros moradores, soube que a energia elétrica veio à região entre quatro e seis anos atrás, assim como a televisão. Enfrentavam problemas antes disso, a exemplo das crianças que se queimavam com as lamparinas.

Na festa, encontrei o Sr. Paiva, que tem a função de Juiz de Paz da comunidade. Pelo que estabelece a constituição, sobre o entendimento de juiz de paz:

A União, no Distrito Federal e nos Territórios, e os Estados criarão:

- Justiça de paz, remunerada, composta de cidadãos eleitos pelo voto direto, universal e secreto, com mandato de quatro anos e competência para, na forma da lei, celebrar casamentos, verificar, de ofício ou em face de impugnação apresentada, o processo de habilitação e exercer atribuições conciliatórias, sem caráter jurisdicional, além de outras previstas na legislação. (Art. 98. Inciso II; CRFB)

Em verdade, o que se encontra no Brasil é que o artigo é esquecido, as eleições não existem e os juízes de paz vêm a cumprir exigências que transcendem à sua competência. Não sendo diferente em São Pedro, conforme fala Seu Paiva. Ele vem a ser a autoridade máxima na comunidade, trabalhando sempre com a mediação, a conversa, uma vez que é muito respeitado pela população local. Herdou a função de seu pai, e encara dificuldades como a falta de policiamento e segurança, com os conflitos em que não tem alçada para resolver.

Muito sábio, ele expressa claramente: ama São Pedro, e não a trocaria por qualquer outro lugar para viver. Infelizmente, traz também à tona problemas que enfrenta em sua terra natal. Como exemplo já citado da saúde precária, falta de médicos, remédios, entre outros... Um grande obstáculo para ele reside na dificuldade de acesso à comunidade, a estrada não pavimentada e a falta de estrutura. Poucos foram as autoridades que pisaram no solo de São Pedro, a exemplo de Blairo Maggi. O ex-governador esteve por lá duas vezes, e conversou com Seu Paiva, prometendo grandes mudanças, que em realidade não ocorreram. Outros parlamentares já apareceram no local em época eleitoral, como candidatos, mas assim que o pleito se deu, não retornaram.

Outro grave problema se dá com a condução das pessoas de uma cidade para outra, e à comunidade. São obrigados a ir à boleia dos caminhões, em péssimas condições, ainda mais com o medo da fiscalização da polícia nas rodovias. Entretanto, não existem alternativas à prática, mesmo com o medo, a incerteza e insegurança, é a forma que os habitantes de lá têm para se locomover.

De fato, nota-se assim o isolamento que se impõe ao lugar. E são árduos meios para que a situação cesse. O problema é de infraestrutura, e a população não tem meios para sair e cobrar, trazer ações. Sem a cobrança, as medidas não vêm, completando o ciclo vicioso. É interessante notar esse ponto, uma vez que na criação da lei estadual nº 8.830, era apontada (criticava-se) a falta de participação popular, como das comunidades tradicionais. Mas se faz a questão: Como pode o governo cobrar a participação uma vez que vem a dificultá-la, através do isolamento de todo um povo, sem investimentos às políticas públicas? Durante o diálogo, conversamos acerca das leis que vigoram a respeito das comunidades tradicionais, e Seu Paiva revelou não conhecer bem tal conteúdo, sendo esta a realidade de toda a comunidade, afinal, com tão pouco acesso físico, as informações também custam a chegar.

Sendo também professor na única escola do lugar, entende como importante que a informação chegue até o povo, o conhecimento da lei, dos direitos. Por agora, o que chega ainda são as novelas da globo.

Jânio, um dos mestres canoeiros, expressa que pela idade de São Pedro, as políticas públicas são muito lentas. As coisas acontecem numa velocidade que não condiz com as novas necessidades do povo. Isso se deve, para ele, pela falta do interesse da comunidade em buscar seus direitos. Mas também entende que ainda é cedo, as mudanças parecem vir, a exemplo das crianças que agora vêm a estudar na capital. Assim como Seu Paiva, mestre Jânio aponta como o principal problema de Joselândia a dificuldade de se deslocar, as estradas e os meios de condução. Ambos demonstraram interesse na divulgação das leis na região, através de cordéis, para serem entregues até a próxima visita a São Pedro.

Embora tendo apresentado tantos problemas de ordem social, a visita à Joselândia me trouxe muita paz e calma, traduziu um encanto próprio, seja na cultura, nas festas, belezas naturais, na autenticidade e simpatia de seu povo. Seria insensível notarem-se apenas problemas, com diversas formas belas, seja no sorriso das crianças, seja na dança do siriri. Por mais sérias problemáticas que os envolve, é um povo forte, único, que em sua simplicidade, traz um brilho no olhar próprio, sincero, iluminando o mundo que os cerca.


ANdré Luiz Manfrinate

Orientadora: Prof.ª Dr.ª Michèle Sato

GPEA - UFMT

Um comentário:

mimi disse...

ei andré, ficou bem legal este relato, PARABÉNS!!!

ficou boa a correção final! gostei :)

beijos
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