20 de abr de 2012

Artesã da etnia Guató é remanescente de prática sustentável secular

((o eco))
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Coletando aguapé no rio Paraguai. (Fotos: Fábio Pellegrini)

Corumbá (MS) -
 Quando se fala em Pantanal, o pensamento traz logo à lembrança jacarés e tuiuiús. Há, porém, um elemento implícito aí, presente ao longo de toda a extensão de 200 mil km2 da planície pantaneira: o aguapé. Ele está onde há água no Pantanal, mas mesmo pouco lembrado, é matéria-prima de um tesouro cultural brasileiro: o artesanato Guató.

O aguapé é uma planta macrófita, cujos aglomerados são conhecidos como camalotes, abundantes na calha do rio Paraguai e seus afluentes, além de baías e corixos da planície pantaneira. Nos cursos d’água, descem flutuando ao gosto da correnteza, espraiando-se pelos rebojos, eliminando impurezas dos mananciais e servindo de refúgio e fonte de alimento para diversas espécies da peixes, répteis, crustáceos e anfíbios.

Desde criança, Catarina domina a prática de remar em pé na canoa.
Catarina Ramos da Silva, apesar de ter mais de 60 anos de idade, exibe habilidade ao se equilibrar admiravelmente na proa da tradicional “canoa de um pau” para coletar caules desta planta abundante no rio Paraguai. É dali que tira seu sustento. A prática remonta às suas origens: é da etnia Guató, conhecida como os exímios canoeiros do “Mar de Xaraés”, forma como os exploradores europeus denominavam o Pantanal em ocasião da cheia nos primórdios da ocupação da região.

Na canoa, ela seleciona cuidadosamente cada caule de uma rama de aguapé que tira do rio e não extrai mais que três talos da mesma planta, com as mãos, sem utilizar quaisquer ferramentas: “Senão a planta morre”, diz ela. Aos poucos, vão se formando vários maços de caules que mais tarde serão transformados em tapetes, bolsas, cintos, colares, pulseiras, brincos, chapéus, esteiras e abanicos, esses últimos típicos dos Guató. “Tem que cuidar com cobra, além da sucuri tem a boca-de-sapo. Fica escondida no aguapé, enroladinha. Minha mãe morreu picada de cobra. Quando for assim não pode levar susto, senão morre mais rápido”, conta ela.

Lembranças

A idade já começa a incomodar a cada saída de canoa, alugada por R$ 15,00 no Porto Geral de Corumbá. Mas ela gosta, diz que se sente renovada a cada saída, pois a prática a remete à infância na Ilha Ínsua, onde nasceu e passou boa parte de sua vida. É lá que fica a Aldeia Uberaba, em local também conhecida como Fazenda Bela Vista do Norte, ou Porto Índio, ambiente inóspito, cercado de água entre Bolívia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com uma visão esplêndida da Serra do Amolar, bloco rochoso de formação pré-andina que exerce papel fundamental nos pulsos de inundação do Pantanal e refugia espécies da biodiversidade sob risco de extinção.

Após a coleta, Catarina encara uma ladeira íngreme, passando pelo casario do porto de Corumbá, bicentenária cidade, localizada à margem esquerda do rio Paraguai. Outrora fora um dos três mais importantes portos fluviais do mundo por ser fornecedor de charque, plumas, peles de animais silvestres e matérias-primas, como o tanino, para a indústria europeia. Afinal, em uma época em que não havia estradas, Corumbá era a melhor opção para se chegar a Asunción, Buenos Aires e Rio de Janeiro.

Produzindo com a ajuda dos pés

É na Casa do Artesão de Corumbá, antiga cadeia pública do município, hoje local de visitação de turistas, onde Catarina e outros artesãos mantêm suas oficinas, em espaços cedidos pela Prefeitura. Após descarregar o fardo de aguapés coletados, ela relata sobre suas origens: 

- Nasci Catarina Ramos da Silva, mas lá (na Terra Indígena Guató) me chamam de Catí. A situação lá é bem mais simples do que as pessoas tão acostumadas na cidade, mas como a gente era nascido e criado lá, a gente acostuma, gosta, sempre tem uma recordação. Era uma situação boa, vivia da caça e da pesca, comia capivara, passarinho, queixada. Já nascia com a habilidade da canoa. Vai nascendo e aprendendo a lidar com a canoa. Já andei em canoa que só cabia eu. 

E relembra a família, com tom de voz e olhar baixos: 

- quando criança, ajudava os pais a pescar, caçar e trabalhar na roça, como prática de subsistência.

Catarina vai contando sobre sua vida naquela remota ilha: 

- Antes só passava barquinho pequeno, depois começou passar esses grandes, boiadeiros, mas tinha época que passava aquelas lanchas a vapor, então eu tirava lenha pra vender pra eles. Lá era difícil açúcar, sabão, essas coisas... Então tinha que trabalhar pra comprar. Quando estava lá, o pessoal da cidade sempre tratava bem, a gente que era medrosa. Tinha medo de gente de fora. Chegava gente, escondia. 

Tradicionalmente sustentável

O tapete é a peça mais trabalhosa e valorizada. Suas formas imitam as folhas de aguapé que Catarina colhe no Rio

Em seu “ateliê” não há luxo: a sala tem pouca iluminação e paredes com manchas causadas por infiltrações. No pátio, os maços da matéria-prima vão sendo pendurados em varais para o processo natural de secagem. Na confecção de seus produtos, a preferência de Catarina é pelo aguapé de caule comprido, ou o “aguapé dourado” encontrado rio acima, longe das impurezas da cidade. Há também algumas peculiaridades sobre o modo de produção original. A tradição oral diz que o caule deve ser coletado em lua minguante, mas hoje em dia, por ser sua fonte geradora de renda, qualquer lua é válida.

Outras tradições ela faz questão de manter: “Não é qualquer aguapé, não, tem que tirar talo por talo. Tem gente que eu ensinei que tira com faca, mas não faço isso porque machuca a planta, mata o pé se cortar tudo. Não deve matar a natureza. Pode utilizar, mas tem que preservar. Tira o que você vai usar, mas deixa ele vivo. O que não vai servir deixa no rio.”

Após a secagem, aí sim, com uma faca, são feitas tiras no sentido do comprimento da fibra, dando preferência às mais finas. Assim, junta-se três tiras, sendo duas pontas (a parte superior do caule onde começam as folhas) e um “pé” (base do caule que se interliga com a raiz) para começar o trançado. 

Ao acabar o comprimento, insere-se mais uma tira, de forma a manter a espessura da trança, tendo cuidado ao apará-la e já deixando-a pronta para encaixar outras duas fibras, sempre dando preferência aos talos mais finos. Na medida em que o trançado vai aumentando, a artesã, sentada e descalça, prende a trança entre o dedão do pé e o segundo dedo, de forma que o emaranhado de fibras fique esticado horizontalmente. 

A atividade laboral de Catarina é minuciosa e exige paciência. Para se ter uma noção, são necessários cerca de 50 metros de tiras de fibra de aguapé para confeccionar um tapete de 1,2 metros. O único material industrializado que ela utiliza é a linha para costurar as tramas que dão formas aos objetos.

História sofrida

Poente no rio Paraguai, fonte do sustento de Catarina e dos seus ancestrais

A simpática anciã revela que casou-se jovem: “O pessoal foi mudando da ilha e viemos pra cá [Corumbá]. Ele [o marido] pegou serviço de empreitada, ficou em contato com o pessoal da cidade, aí desandou.” O casamento se arruinou, o ex-marido faleceu e ela teve de dar conta dos cinco filhos com ajuda de Josefina, sua ex-sogra. “Foi aí que comecei a trabalhar com aguapé, porque minha sogra já morava aqui e era a melhor opção pra ganhar dinheiro. Quando aprendi, eu tava numa pior. Criei meus filhos sozinha e minha vida com homem foi uma decepção. Nunca mais casei. Fiquei muito magoada. Trabalhava como cozinheira em uma empresa. Depois meus filhos casaram, cada um tem a sua vida. Mas sempre minha sogra me dando força, dizendo que eu não podia desistir, que sem fé em Deus não vamos a lugar nenhum.”

Catarina afirma que tira seu sustento do artesanato, além da aposentadoria, mas que não é fácil: “As pessoas acham que o material feito de aguapé deve ser barato porque é tirado aí no rio, mas é duro. Tem de levantar cedo, depois pega o sol quente, tira, traz, coloca no sol pra secar por cinco dias, cuidando, tirando do varal, pondo no chão, secando... Trança tudo pra depois costurar. Tudo na mão. Nunca fiz na máquina. A não ser que peçam. Um desses tapetes custa R$ 400 a R$ 500. É muito trabalhoso e usa muita planta.” As bolsas, famosas pela resistência, são chamadas de "legítimas ecobags do Pantanal" pelas clientes e já fazem sucesso na cidade. 

As formas, segundo ela, são inspiradas nas folhas do aguapé e nas ondas que vento e barcos formam no rio. 


Vida dos Guató virou filme

A história dos Guató é tão curiosa que chegou a ser roteiro do premiado filme 500 almas (2005), do cineasta Joel Pizzini. Vivendo no Pantanal há pelo menos 800 anos, os Guató tinham suas canoas como suas casas, onde guardavam os pertences. Apesar de arredios, sempre se prestaram a ajudar o Império Brasileiro e visitantes. Aos poucos, foram perdendo grande parte de seu território tradicional, mas foram resistindo e se mantendo em pequenas aldeias escondidas pelo Pantanal.

Com a ocupação do Pantanal pela pecuária, suas terras foram sendo tomadas. Aos poucos, foram se espalhando pelas periferias de cidades como Barão de Melgaço, Cáceres, Poconé, Ladário e Corumbá, ou trabalhando em fazendas, fazendo com que suas raízes fossem se apagando lentamente.

O Marechal Rondon, no início do século passado, durante estada na região, lhes concedeu autorização oficial para continuarem morando definitivamente na ilha Ínsua, pois já vinham sofrendo com posseiros. Mas não teve jeito. Tanto se forçou a evasão dos nativos de suas terras que entre 1950 e 1970 a etnia foi considerada extinta pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Até mesmo o indigenista Darcy Ribeiro publicou artigo alegando a extinção dos Guató: “Viviam à margem do rio Paraguai, subindo às vezes o rio São Lourenço, no Estado de Mato Grosso. (Extintos)".

A missionária salesiana Ada Cambarotto, em passagem por Corumbá em 1976, ao visitar a Casa do Artesão, deparou-se com uma peça de tapeçaria feita de aguapé, e relacionou-a à cultura característica Guató, conhecendo então a índia Josefina.

A partir daí foram realizadas expedições da Equipe Indigenista Missionária de Corumbá e da Funai até a Ilha Ínsua, comprovando a remanescência da etnia e de sua cultura.

Em 1986, em carta-manifesto redigida por Severo, filho de Josefina, endereçada às autoridades federais, relatando a história de seu povo, ele reivindica a posse definitiva da Ilha Ínsua. “Tenho lutado e muitas vezes me canso das promessas e mais promessas sem respostas satisfatórias. (...) Aí eu digo: vou abandonar isso, porque já me cansei, eu preciso trabalhar, tenho meus filhos pra criar. Mas quando já estou para desistir, a minha esposa não me deixa desanimar e juntos prosseguimos na luta em prol dos meus irmãos Guató”.

Após trabalhar como guarda municipal por 16 anos em Corumbá, onde chegou adolescente, acompanhando sua família expulsa da Ilha Ínsua, quis o destino que Severo, após ter um irmão assassinado cruelmente por conflito com posseiros, se tornasse cacique e liderasse o retorno dos Guató a seu território, em 1994. E finalmente, em fevereiro de 2003, a Terra Indígena Guató foi homologada.

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